Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Quem gostou de literatura no ensino médio vai se lembrar desse trecho de poema. É de Manuel Bandeira e retrata seu próprio drama: hipocondríaco, ele passou a vida inteira com medo da tuberculose. Passou-lhe a vida inteira de perspectivas e potencial (”que poderia ter sido e que não foi”), mas ele não a viveu.
Pois esse trecho de Pneumotórax (o nome do famoso poema) e essa frase citada no parágrafo acima me lembra demais Rodrigo Calaça: aquele que poderia ter sido e não foi.

Em 2003, Calaça pegou uma parada duríssima: aos 22 anos, ele tinha de substituir um goleiro consagrado, com o time sob risco seriíssimo de rebaixamento, na lanterna. Resultado: suportou legal a pressão. Mais do que isso, foi o goleiro que participou do time que teve a maior sequência invicta da história do Goiás num Brasileiro (16 jogos!).
No fim do ano, o técnico Cuca foi embora e Calaça voltou ao banco. E ficou à espera de nova e real oportunidade. E nisso já se vão mais de seis longos anos.
Hoje, ele tem 29. Uma carreira inteira que poderia ter sido e não foi. Quem pode dizer o que teria sido Calaça se tivesse saído do Goiás ao fim daquele ano glorioso para ele? Que rumo teria tomado seu destino?
Mas o catalano ficou e segurou bem as pontas nas raríssimas ausências de Harlei. E se tornou dono de outro recorde absoluto: o de participações em jogos… no banco de reservas do Goiás. Ganhou fama de acomodado, para dizer o menos. Mas também boa parte da torcida ainda guarda na memória os grandes momentos que ele teve no gol esmeraldino, em 2003 e numa belíssima atuação frente ao Cruzeiro, em 2006. Agora, em 2009, no “clássico” contra o Vila, outra chance e outra nota alta.
Pois bem: quem me acompanha aqui no Blog, sabe que não sou de dar opiniões muito extremadas. Mas também não gosto de ficar em cima do muro.
Por isso mesmo penso que, apesar da falta de sequência de jogos, já faz pelo menos três anos que a camisa número 1 Goiás já deveria ter Calaça como dono.
Quando Harlei chegou ao Goiás, em 1999, meus olhos brilhavam de ver suas atuações. Ao fim daquela temporada, eu não tinha dúvida alguma: passaríamos muitos anos sem correr risco de rebaixamento, porque um time com um goleiro acima da média em um campeonato equilibrado é garantia de, na pior das hipóteses, a permanência no bloco intermediário da competição - a exceção que confirma a regra foi Marcos, no Palmeiras de 2002.
E assim foi, o Goiás terminou sete temporadas, de 2000 a 2006, sem grandes riscos. Depois, Harlei já não foi mais regularmente excepcional. E assim passamos a conviver mais de perto - 2007 que o diga - com o fantasma do rebaixamento…
Nesses anos todos, o peso - inclusive político - do nome “Harlei” (e suas atuações eficientes, embora raramente brilhantes nos últimos tempos) evitou qualquer chance ao jovem (hoje não mais) goleiro nascido em Catalão e que se destacou já nas categorias de base do Goiás.
Antes do jogo contra o Itumbiara, quero reafirmar: Rodrigo Calaça é um baita goleiro. Desde que eu era repórter da Editoria de Esporte do jornal O Popular e via sua dedicação e seu talento, faz quase dez anos, tenho absoluta certeza disso. Não será um frango ou uma exibição de gala que vai mudar o que penso.
Com o time de técnico novo, alguém que diz “não ter medo de ninguém”, Calaça sabe que a chance de mudar o rumo da carreira no próprio Goiás e barrar Harlei “em vida” (não aposentado ainda), é hoje. Agora, uma coisa é clara: não existe profissão mais ingrata. Uma má noite nesta quarta-feira põe tudo a perder.
ARAUJEANAS
***** Meu colega José Carlos Lopes, jornalista competente, cometeu uma infelicidade, a meu ver, ontem à noite no TBC Esporte. Questionado se Calaça poderia tomar o lugar de Harlei quando este se recuperasse da contusão, ele foi enfático, mais ou menos com essas palavras: “Ora, é só ver que Zico e Pelé foram titulares no Flamengo e no Santos a carreira inteira.” Primeiro, comparar Zico/Flamengo e Pelé/Santos com Harlei/Goiás é muito arriscado - basta ver o que cada um conquistou pelo clube durante suas passagens; segundo, Zico e Pelé souberam se despedir de seus times do coração ainda perto do auge e sem nenhuma ameaça à suas posições.
***** Se me perguntarem “Calaça merece ser titular?”, respondo que sim; se me perguntarem se “Calaça vai ser titular”, aposto que não. Torcendo para perder a aposta.
***** Goiás mantém praticamente o mesmo time que venceu o Vila, hoje em Itumbiara. Jogo muito difícil, no qual, para mim, Jorginho acerta em dar continuidade à escalação. E é bom lembrar: jogo na TV, após a novela.